Observatório do Desenvolvimento Capixaba

A qualidade do emprego formal das três santas capixabas

Em novembro do ano passado, o Observatório do Desenvolvimento Capixaba (ODC) lançou o Índice de Qualidade do Emprego Formal no Espírito Santo (IQEF-ES), compreendendo o período de 2007 a 2017, sendo calculado para todos os 78 municípios capixabas.

Inspirado na metodologia do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o IQEF-ES é  um indicador do tipo composto. Agrega 09 estatísticas em 03 dimensões, a saber: i)Econômica; ii) Oportunidade e iii) Sofisticação, ver http://www.desenvolvimentocapixaba.net/publicacoes/estudos-tematicos/57-iqes-es

Nesta resenha, o objetivo é apresentar algumas características da qualidade do emprego formal das três Santas, isto é, dos três municípios localizados na Microrregião Central Serrana do Espírito Santo, a saber: i) Santa Leopoldina; ii) Santa Maria de Jetibá e iii) Santa Teresa. O interesse em analisar a qualidade do emprego formal especificamente nessas 03 localidades justifica-se por serem municípios relevantes do ponto de vista econômico da microrregião Central Serrana que no período analisado no IQEF-ES foi a segunda microrregião com melhor Índice de Qualidade do Emprego Formal no Espírito Santo.

Antes porém, é preciso tecer algumas considerações a respeito das características econômicas e sociais desses municípios. Localizadas na região serrana do Espírito Santo, essas cidades são marcadas pela forte presença de imigrantes alemães e italianos responsáveis pela ocupação e colonização da região no século XIX.

Segundo estimativas do IBGE/IJSN, em 2017, a população dos três municípios compreendia quase 76,8 mil habitantes, sendo Santa Maria de Jetibá, a cidade mais populosa com quase 40 mil habitantes. Nos últimos 10 anos, as estimativas apontam para o fato de que a população de Santa Leopoldina praticamente se manteve constante em 12 mil habitantes, e as populações de Santa Maria de Jetibá e Santa Teresa obtiveram taxa de crescimento populacional de 25% e 20% , respectivamente.

 Em termos de geração de riqueza, as estatísticas do PIB divulgadas no mês passado pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) trouxeram algumas informações curiosas sobre esses municípios. Eles também foram afetados economicamente pela crise recente 2015/2016, porém em escala menor, fenômeno típico de microrregiões pouco dinâmicas economicamente como é o caso do Nordeste do estado. Na microrregião Central Serrana, o município de Santa Leopoldina tem apresentado baixo dinamismo econômico.

 Por outro lado,  Santa Maria de Jetibá merece destaque. Este município recentemente conseguiu ampliar seu PIB a uma taxa bem superior a seus vizinhos, chegando a partir de 2014, a compor juntamente com outros 15 municípios capixabas, o grupo dos 20% das cidades do Espírito Santo com PIB superior a R$ 1 bilhão. Apresentou taxas de crescimento negativas do PIB real em 2015 e 2016, mas com sinais de recuperação em 2017.  

 A título de comparação, em 2002, Santa Maria de Jetibá possuía um PIB de quase 3 vezes superior ao PIB de Santa Leopoldina e praticamente 2 vezes maior que o PIB de Santa Teresa. Em 2017, o PIB de Santa Maria de Jetibá foi equivalente a quase 7 PIB´s de Santa Leopoldina e quase 3 vezes o PIB de Santa Teresa.  Além disso, diferentemente das outras duas Santas, nos últimos 05 anos, Santa Maria de Jetibá conseguiu apresentar saldo do emprego positivo em todo o período.

 Retomando o objetivo da resenha que é discorrer sobre a qualidade do emprego formal nesses três municípios com base nos índices calculados pelo IQEF-ES, destaca-se inicialmente que no caso do Espírito Santo, o mercado de trabalho se diferencia muito em termos quantitativos, mas se assemelha em termos qualitativos. Isso quer dizer que a qualidade do emprego formal de municípios que compõem, por exemplo, a Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV) é semelhante à qualidade do emprego de municípios da Microrregião Central Serrana, sendo essa qualidade baixa para o todo o estado, tendo em vista que nenhuma microrregião alcançou IQEF igual a 0,5; numa escala de 0 a 1,00.

O IQEF calculado para a região Central Serrana em 2007 foi igual a 0,44 caindo para  0,40 em 2017. As microrregiões Centro Oeste e RMGV foram as que tiveram o maior IQEF (0,41) em 2017. No entanto, a RMGV exibia um IQEF de 0,48 em 2007 e a Centro Oeste 0,45.  

O Gráfico 1 mostra que Santa Maria de Jetibá, desde 2007 exibe um IQEF melhor que o de suas vizinhas Santa Teresa e Santa Leopoldina. Destaca-se que no auge da crise em 2015 e 2016, com a queda dos índices que compõem as Dimensões Econômica e Oportunidade daquela cidade e como as outras duas Santas foram menos impactadas pela crise, o IQEF delas praticamente se igualaram, retomando em 2017 a tendência anteriormente verificada de liderança de Santa Maria de Jetibá na qualidade do mercado de trabalho na região.

GRÁFICO 1 – IQEF-ES DAS TRÊS SANTAS

No entanto, embora na Dimensão Econômica, Santa Maria de Jetibá tenha conseguido apresentar maiores sinais de recuperação, nas dimensões Sofisticação e principalmente Oportunidade, não tem conseguido melhorar sua performance, fazendo com que seu IQEF se mantenha em 0,42 desde 2015. No Índice de Oportunidade, cabe observar que não obstante Santa Maria de Jetibá não tenha conseguido melhorar este Índice, foi o município capixaba mais bem posicionado nesse quesito em 2017 no Espírito Santo, com Índice de Oportunidade igual a 0,54 nesse ano, contra 0,65 observado em 2009, período que atingiu seu maior Índice de Oportunidade. De fato, a crise econômica teve reflexos sobre a precariedade do emprego formal nesse município, sobretudo para os entrantes sem experiência que nessa cidade é o grupo mais vulnerável.

Santa Teresa, por sua vez, exibe melhor Índice de Sofisticação em relação às suas vizinhas desde o início da série. Isso pode em parte ser explicado pela presença da Escola Agrotécnica Federal no município desde 1940 e mais recentemente após 2008 a integração dessa Escola ao Instituto Federal do Espírito Santo, bem como pelo fato da atividade produtiva da região ser mais sofisticada que as demais. No Índice de Encadeamento que compõe o Índice de Sofisticação, Santa Teresa possui liderança, isto possui mais trabalhadores em atividades relacionadas às indústrias de transformação e extrativa mineral em relação ao total do emprego formal superior a de suas vizinhas. Além disso, possui economia fortemente voltada para o setor de serviços sobretudo o turismo, explorando o Museu de Biologia Professor Mello Leitão, o Festival de Jazz na cidade e  as rotas belíssimas da região.

Em Santa Leopoldina, a piora do seu IQEF mais recentemente curiosamente é explicada em parte pela queda do Índice de Sofisticação do Emprego Formal, o que geralmente não foi observado no estado capixaba, pelo contrário, o Índice de Sofisticação do Emprego Formal tem sido responsável por amenizar a queda do IQEF dos municípios.

Em síntese, o IQEF das três Santas mostrou que os dois municípios mais dinâmicos Santa Maria de Jetibá e Santa Teresa foram mais fortemente impactados pela crise econômica de 2015/2016, o que refletiu na queda de oportunidade para os grupos mais vulneráveis da sociedade. Embora a região conte com uma rede de ensino relevante com oferta de cursos voltados para a vocação econômica da região, a sofisticação do emprego formal permanece baixa, principalmente no período mais recente em Santa Leopoldina, que após melhoria significativa desse Índice apresentou sinais de piora. É preciso avaliar a capacidade dessa rede de ensino transbordar seus efeitos especialmente para esta última cidade, bem como desenhar políticas públicas voltadas à melhoria das oportunidades para mulheres, jovens e entrantes sem experiência nas Três Santas.

Gráfico 2 – Índice de Economia do Emprego Formal
Gráfico 3 – Índice de Oportunidade do Emprego Formal
Gráfico 4 – Índice de Sofisticação do Emprego Formal

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